A história política das Copas do Mundo
Nas últimas semanas, vimos uma série de notícias sobre diversos abusos por parte das autoridades dos Estados Unidos a delegações e turistas ao chegarem ao país para a Copa do Mundo. Com razão, é grande a revolta nas redes sociais e na imprensa, mas será que estamos presenciando algo inédito ou isso é mais um elemento do “padrão FIFA”? A organização máxima do futebol mundial alguma vez prezou por valores como democracia, liberdade, igualdade e equidade ou o sucesso dos negócios, sobretudo o lucro financeiro, sempre falou mais alto?
Para pensar isso, decidimos fazer uma avaliação com base em um recorte histórico que, em média, começa dez anos antes da escolha de um país-sede de uma edição do mundial de seleções pela FIFA. Ou seja, ao falar da Copa de 2014, consideraremos eventos internos e externos do Brasil a partir de, aproximadamente, 1997, visto que o país foi eleito como sede dessa edição em 2007.
Em 1928, a FIFA decidiu pela realização do primeiro campeonato mundial de seleções em 1930, devido ao crescimento do esporte e ao sucesso da categoria nos Jogos Olímpicos. O Uruguai foi escolhido como país-sede por ter conquistado a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1924 e 1928 e em homenagem ao centenário de sua primeira constituição, promulgada em 1830.
Apesar de se enquadrar em um período histórico com menor concessão de direitos políticos e sociais à população, o Uruguai entre 1918 e 1930 detinha muitos dos melhores índices socioeconômicos das Américas; havia concedido o direito a voto às mulheres através de sua constituição de 1917 (direito esse que só seria regulamentado em 1932); e iniciou a constitucionalização dos direitos trabalhistas, o que levou o país a ser apelidado de a “Suíça do Sul”. Tudo isso, em um cenário de estabilidade política que durava décadas e teria fim em 1933.
Como veremos adiante, o Uruguai foi uma das poucas exceções entre os países-sede que, ao momento de sua escolha e da realização da Copa, conseguiu ter um cenário estável no que diz respeito à sua política interna, externa, economia e direitos políticos e sociais. A partida final entre Uruguai e Argentina, foi marcada por um clima de rivalidade, tensões políticas e intimidação aos jogadores argentinos, o que levou à violência nas ruas de Montevidéu e também em Buenos Aires, onde o consulado uruguaio foi apedrejado.
Dois anos após a primeira Copa, a Itália foi escolhida para sediar a edição de 1934. A eleição se deu exatamente dez anos após a “Marcha sobre Roma”, evento político do movimento fascista que contribuiu para a ascensão de Benito Mussolini ao poder. Quando da realização do mundial, a Itália já estava há 12 anos sob o regime ditatorial fascista, que havia exilado, encarcerado ou executado os seus principais opositores políticos e tinha controle total sobre o Estado e a sociedade italiana. Além de todas as restrições de direitos, perseguições a qualquer pessoa que ousasse discordar do regime e o uso constante da violência, a Itália travou a Segunda Guerra Ítalo-Senussi (1923-1932), também conhecida como “Pacificação da Líbia”, então sua colônia, que levou a morte de 300 mil civis.
Em 1936, a França foi escolhida como sede da Copa de 1938 no 23º Congresso da FIFA, realizado em Berlim, na Alemanha Nazista, rompendo com o acordo de alternância entre sedes americanas e europeias. A economia francesa ainda sofria com os impactos remanescentes da Crise de 1929, o que contribuiu bastante para que nesse período de dois anos o país se visse tomado por disputas políticas, por vezes violentas, entre comunistas, socialistas, nacionalistas tradicionalistas e fascistas.
Assim como a Grã-Bretanha, a França estava empenhada no sucesso da política de apaziguamento, que terminou por potencializar as condições para o crescimento militar e o expansionismo alemão sob o regime nazista. E, novamente junto aos britânicos, adotou medidas econômicas, comerciais e militares que terminariam por facilitar a vitória dos nacionalistas na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que levou à ditadura de Francisco Franco. Por fim, a França se encontrava no auge de sua política imperialista, com a exploração de colônias e de suas populações na África, Américas, Ásia e Oceania.
Os países-sede das duas primeiras copas após a 2ª Guerra Mundial, foram definidos em 1946: Brasil (1950) e Suíça (1954). Ambos tinham relação direta com o conflito. O Brasil passava por um período de redemocratização, um dos reflexos de sua participação junto aos Aliados no combate às forças do Eixo. Mesmo tendo sido uma ditadura nos anos anteriores, em que o regime de Vargas perseguiu opositores e cerceou liberdades, houve a conquista de direitos, como o voto feminino, a legislação trabalhista e, já no então novo período democrático, uma nova constituição que reafirmava esses direitos e proporcionava outros. Ainda assim, realizar o mundial de seleções custou muito ao Brasil, em um momento em que o país tinha baixos índices sociais e de desenvolvimento, sem plenitude de direitos para a maior parte de sua população.
A Suíça, um país historicamente conhecido por sua neutralidade em conflitos armados, foi um dos Estados que mais lucrou com o regime nazista, tendo recebido e mantido sob a sua guarda, grande volume de recursos financeiros de autoridades alemãs e de colaboracionistas, antes, durante e logo após o fim da 2ª Guerra Mundial. Além disso, o país auxiliou na fuga de criminosos de guerra e se apropriou de bens e valores de vítimas do nazismo e de seus aliados. A Suécia, escolhido como país-sede da Copa de 1958 no Congresso da FIFA de 1950, tem um histórico similar ao suíço, ainda que em menor medida. O Estado sueco se manteve neutro durante o conflito mundial e colheu muitos frutos econômicos, principalmente pelo fornecimento de ferro, derivados e armamentos à Alemanha Nazista.
Em 1956, a FIFA decidiu que a edição de 1962 seria no Chile, país que há dez anos enfrentava instabilidades políticas, econômicas e sociais, que culminariam no golpe de Estado de 1973. Mesmo sendo uma democracia, confrontos entre forças estatais e populares eram uma constante, com violação de direitos humanos não sendo incomuns. A Inglaterra, sede da Copa de 1966, de acordo à eleição ocorrida seis anos antes, nesse intervalo estava envolvida em conflitos na região que se tornaria o Iêmen do Sul (1963-1967); na Malásia (1948-1960); Brunei (1962); mantinha colônias na África, Américas e Ásia; havia combatido à Revolta dos Mau-Mau no Quênia (1952-1960), cometendo severas violações de direitos humanos; participado da Crise de Suez (1956); e, por meio de seu serviço de inteligência, contribuído ativamente para a derrubada do primeiro-ministro iraniano, Mohammad Mosaddegh, em 1953.
O México foi eleito como país-sede da emblemática Copa de 1970 no ano de 1964. O país norte-americano é lembrado no Brasil e em outros vizinhos latino-americanos como um porto seguro para aqueles que foram perseguidos por regimes autoritários da região. Contudo, o cenário interno mexicano era bem diferente da atuação externa de seus governos. A virada dos anos 1960 para a década de 1970 foi o auge da Guerra Suja, um período de intensos conflitos sociais e enfrentamentos armados entre o Estado e guerrilhas e movimentos sociais, que teve como principais episódios o Massacre de La Coprera (1967); a violenta repressão a movimentos populares em 1968; o Massacre de San Miguel Canoa (1968); o Massacre de Tlatelolco (1968) e a Matança de Monte de Chila (1970).
O ano de 1966 definiu os países-sede de três copas: Alemanha Ocidental (RFA, 1974), Argentina (1978) e Espanha (1982). A Alemanha Ocidental, na prática, ainda estava sob ocupação militar britânica, norte-americana e francesa, como consequência do fim da 2ª Guerra Mundial e, naquele momento, também como justificativa do plano de defesa da Europa Ocidental frente a uma possível invasão soviética. Nesse contexto, a RFA foi um dos principais palcos da Operação Gladio, um plano militar clandestino que consistia na criação, treinamento e armamento dos denominados “stay behind armies”, que diante da impossibilidade das forças ocidentais em conter uma invasão da URSS aos seus domínios na Europa, operariam com táticas de guerrilha e terroristas para desestabilizar a retaguarda soviética nos territórios ocupados.
No entanto, enquanto os blocos capitalista e socialista não se enfrentavam em uma guerra convencional na Europa, os “stay behind armies” foram utilizados para infiltração e desestabilização de grupos de esquerda, armados ou não, e movimentos sociais na porção ocidental do continente e realização de ataques de falsa bandeira (“false flag”) para incriminar estes grupos, gerando instabilidade política e insegurança geral. Além disso, muitos desses grupos eram compostos e liderados por antigos criminosos de guerra nazistas e fascistas, que passaram a empregar as mesmas práticas ideológicas e táticas de seus regimes. Guerrilhas urbanas de extrema-esquerda enfrentavam aos “stay behind armies” e às forças estatais, além de promover atentados e sequestros, sendo o mais famoso o ataque contra a delegação olímpica israelense na Tragédia de Munique, em 1972.
Tomando como referência os dez anos antes da escolha da Argentina como sede até a Copa de 1978, o país platino viveu, em 22 anos, quatro golpes de Estado que deram origem a quatro ditaduras. Todos esses regimes de exceção foram marcados por violações de direitos humanos e perseguições a seus opositores, com destaque para os fuzilamentos da “Revolução Libertadora” (1955-1958), mas nada se compara ao que aconteceu no último período ditatorial, denominado “Processo de Reorganização Nacional” (1976-1983). Conforme documentos do Departamento de Estado dos EUA, os mortos e desaparecidos argentinos entre 1975 e 1978 totalizam algo em torno de 22 mil pessoas. Até 1983, esse número chegaria a 30 mil, de acordo com organizações de Direitos Humanos.
Enquanto jogos do mundial eram disputados no mítico estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, a cerca de 2 km dali, na então Escola de Mecânica da Armada (EsMA), milhares de opositores políticos e seus familiares eram torturados, assassinados e sequestrados, inclusive centenas de bebês nascidos naquele lugar, que, em muitos casos, foram entregues aos algozes de seus pais. As Madres de Plaza de Mayo buscavam mostrar à imprensa internacional o que o Estado argentino fazia com seus filhos e netos. A EsMA foi o maior centro de tortura da América Latina.
Em 1982, completavam-se cinco anos da redemocratização espanhola, que não estava plenamente reestabelecida. O país havia sido escolhido como sede de uma Copa do Mundo quando era uma ditadura e potência colonial. A morte de Francisco Franco em 1975 abriu o caminho para a queda, dois anos depois, do regime instituído por ele e seus partidários ao fim da Guerra Civil Espanhola. Apesar disso, a Espanha lidava com movimentos separatistas na Catalunha, Galícia e País Basco, sendo esse último o mais grave, pela atividade do grupo guerrilheiro ETA. E ainda em 1975, o Estado espanhol aprofundou a Questão do Saara Ocidental, ao entregar a antiga colônia para a Mauritânia e o Marrocos, que a ocupa até hoje, desconsiderando o desejo de independência da população local.
A Copa de 1986 passou por uma situação inusitada. Em 1974, a Colômbia foi eleita como sede. A situação interna do país sul-americano, entretanto, levou o governo nacional a renunciar ao posto em 1983. A nação colombiana estava em meio a um conflito fraticida com raízes na década de 1950, que envolvia grupos guerrilheiros, paramilitares, forças estatais e narcotraficantes, e era afetada por uma forte crise econômica. A FIFA, então, nomeou mais uma vez o México para sediar o torneio. A realidade mexicana não era muito distante daquela de 16 anos antes, com a Guerra Suja em curso e a ascensão dos cartéis de drogas, já com vínculos políticos. O episódio de violência mais marcante dessa etapa foi o assassinato do jornalista Manuel Buendía em 1984, responsável por denúncias contínuas relacionadas a atividades da CIA no México; à extrema-direita; ao narcotráfico; e à corrupção governamental. A morte de Buendía é considerada um “crime de Estado”.
Eleita em 1984 para receber a Copa de 1990, a Itália vivia o ocaso da ordem política instituída após a 2ª Guerra Mundial. A corrupção generalizada, a influência política das máfias e os quase 30 anos de violência ininterrupta causada por esses grupos, guerrilhas de esquerda, “stay behind armies” e o próprio Estado italiano, levariam à implosão do sistema político nacional poucos anos depois da realização do mundial. O futebol foi diretamente afetado pela corrupção estrutural que dominava a Itália, com os escândalos de apostas e jogos arranjados “Totonero” em 1980 e outra vez em 1984-1986. No plano externo, as forças armadas italianas participaram da desastrosa força de paz composta também por França, Reino Unido e Estados Unidos em uma intervenção na Guerra Civil do Líbano entre 1982 e 1984, a pedido do governo local, como tentativa de estabilização do conflito. Nada disso impediu a realização da Copa na Itália.
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